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Da ascensão no mundo do funk às disputas pessoais que atravessaram décadas, a trajetória de Verônica Costa reúne
fama, política, relacionamentos conturbados e um processo criminal que chegou ao fim na Justiça

Todo mundo já sabe que Verônica Costa, conhecida como a “Mãe Loira do Funk” e ex-vereadora do Rio de Janeiro, teve a prisão determinada pela Justiça após o processo em que foi condenada por tortura contra o ex-marido, Márcio Costa, chegar ao fim. A condenação, de 10 anos e 8 meses de prisão em regime inicialmente fechado, tornou-se definitiva após o trânsito em julgado. Na quarta-feira (23), policiais civis foram até a residência de Verônica, na Barra da Tijuca, para cumprir o mandado, mas ela não foi encontrada. Nesta quinta-feira (24), ela era considerada foragida. Mas essa história, que hoje está nos autos de um processo criminal, começou muito antes de delegacias, tribunais e mandados de prisão. Começou nos bastidores do próprio mundo do funk carioca.

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Uma entrevista que mudou de rumo

No início dos anos 2000, quando eu trabalhava como repórter, fui escalado para entrevistar Priscila Nocetti, que seria apresentada como uma das novas musas da Furacão 2000. Naquele período, Priscila já mantinha um relacionamento com Rômulo Costa, empresário responsável pela Furacão 2000 e um dos nomes mais conhecidos da Indústria do Funk. A entrevista aconteceu normalmente. Depois, Priscila foi trocar de roupa para fazer as fotografias que acompanhariam a matéria. Enquanto o fotógrafo aguardava, comecei a conversar com Rômulo.

Em determinado momento, perguntei:

— E a Verônica?

A resposta veio de maneira direta. Segundo o relato feito por Rômulo naquela ocasião, ele e Verônica já não estavam juntos porque ela teria mantido um relacionamento com um sobrinho dele. Mais do que isso: Rômulo afirmou que a relação teria acontecido na própria cama do casal. A conversa, evidentemente, mudou completamente o rumo da pauta. Antes de publicar qualquer informação, perguntei se aquilo estava sendo dito oficialmente, ou seja, se poderia ser atribuído a ele. Rômulo respondeu que sim, mas pediu que os assuntos fossem tratados separadamente: uma matéria sobre Priscila e outra sobre Verônica. Foi o que fiz. Procurei Verônica, que à época já tinha projeção política e era vereadora. Ela me recebeu pessoalmente e negou a versão apresentada pelo então marido. Segundo Verônica, a história era uma tentativa de Rômulo de preservar sua própria imagem diante do público do funk. Naquele momento, cada um ficou com sua versão.
E o assunto poderia ter terminado ali. Não terminou.

O caso Márcio Costa

Anos depois, em fevereiro de 2011, o nome de Verônica Costa voltaria ao noticiário por uma razão muito mais grave. Márcio Costa, então marido de Verônica, procurou a Polícia Civil e denunciou ter sido vítima de uma sessão de violência que, segundo seu relato, teria durado cerca de 20 horas. As acusações deram origem ao processo criminal que atravessaria anos de tramitação judicial. Segundo as informações apresentadas na investigação e na denúncia, Márcio teria sido amarrado e agredido, além de sofrer lesões provocadas por substâncias químicas. O caso envolvia também quatro parentes de Verônica. A primeira condenação veio em 2019.

Em 2023, após recurso apresentado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio aumentou a pena de Verônica de 5 anos e 10 meses para 10 anos e 8 meses de prisão, com início em regime fechado. A decisão também manteve a perda do mandato de vereadora. Outros quatro réus ligados à família também foram condenados no processo, com penas igualmente revistas em 2023. Agora, depois do esgotamento das possibilidades de recurso, a condenação tornou-se definitiva.

A versão de Verônica

Verônica sempre negou a acusação de tortura. Em entrevistas ao longo dos anos, também falou abertamente sobre o relacionamento com Rômulo Costa e sobre a origem de sua relação com Márcio. Em participação no Podcast Papagaio Falante, no ano passado, Verônica afirmou que teria se aproximado de Márcio como uma forma de vingança contra Rômulo.

Segundo o relato dela, estava emocionalmente fragilizada após o fim do casamento e decidiu se envolver com o sobrinho do empresário. Ela contou inclusive que tomou a iniciativa de perguntar a Márcio se ele a considerava bonita e se ficaria com ela. Na versão apresentada pela própria Verônica, o episódio teria sido uma espécie de resposta à suposta traição de Rômulo com Priscila Nocetti. Ela também afirmou que se arrependeu posteriormente da atitude e que a decisão acabou tendo consequências muito maiores do que imaginava.

Uma rivalidade que atravessou os anos

A história entre Verônica e Priscila também não ficou restrita aos bastidores do início dos anos 2000. Em 2016, um áudio atribuído a Verônica e direcionado a Priscila ganhou repercussão. Na gravação, Verônica faz uma série de acusações contra a rival e menciona desde sua atuação política até o relacionamento de Priscila com Rômulo.

O tom da discussão era extremamente agressivo. Verônica também afirmou, naquele episódio, que Priscila teria sido responsável pelo fim de seu casamento e fez referências ao passado profissional da rival. Priscila, por sua vez, respondeu publicamente às acusações e também fez ataques pessoais contra Verônica. O episódio tornou pública uma disputa que já vinha de muitos anos.

Do funk à política

Por trás de toda essa história existe ainda outro capítulo importante: a transformação de Verônica Costa em personagem da política carioca. A “Mãe Loira do Funk” deixou de ser apenas uma personalidade ligada ao Movimento Funk e construiu uma carreira política, chegando à Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Ao longo desse período, passou a defender projetos voltados, entre outros temas, para emprego e juventude, enquanto mantinha forte identificação com seu público original. Mas as disputas pessoais continuaram acompanhando sua trajetória pública. Hoje, entretanto, o cenário é completamente diferente. O que começou décadas atrás como uma história de relacionamentos, ciúmes, acusações e disputas nos bastidores do funk terminou transformado em um processo criminal com condenação definitiva.

O capítulo que ainda não terminou

A Justiça determinou a prisão de Verônica depois que o processo transitou em julgado. A Polícia Civil tentou cumprir o mandado na quarta-feira (23), mas ela não foi localizada no endereço procurado. A partir daí, a ex-vereadora passou a ser considerada foragida. O caso, portanto, entra agora em uma nova fase: a do cumprimento da pena determinada pela Justiça. E há uma ironia inevitável nessa história. Durante décadas, Verônica Costa foi uma personagem acostumada aos holofotes, às manchetes e aos palcos. Agora, os holofotes estão novamente voltados para ela — mas por uma razão completamente diferente. A história que começou nos bastidores do funk carioca chegou aos tribunais. E, desta vez, não há mais recurso para mudar o resultado da condenação.

FONTE/CRÉDITOS: Por Cristina Boeckel – Repórter do G1 Rio - Rio de Janeiro